Cultura

O povo badaroense cultiva ainda muitas manifestações folclóricas recebidas dos nossos antepassados. Tais manifestações persistem na alma popular.
Francisco Badaró destaca-se pelo seu Artesanato, Casarões, Igrejas, pelas Cantigas de Nove, Vilão, Folias de Reis, Grêmio Lítero Musical “Sete de Setembro” e a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Sucuriú , de tradição secular.

MANIFESTAÇÕES FOLCLÓRICAS E RELIGIOSAS
FESTA DO DIVINO: A Festa do Divino é uma festa da Igreja Católica em que se celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a Virgem Maria, reunidos no cenáculo (local da última ceia), marcando o nascimento da Igreja.

FOLIA DE REIS :é um festejo de origem portuguesa ligado às comemorações do culto católico do Natal, trazido para o Brasil. ainda nos primórdios da formação da identidade cultural brasileira, e que ainda hoje mantém-se vivo nas manifestações folclóricas de Francisco Badaró.

PRESÉPIO E AS PASTORINHAS EM ÉPOCA DE NATAL: Um bailado folclórico do Ciclo Natalino,cujos componentes são em geral compostos por moças. Acontecem sempre à noite e é realizado em frente a um presépio, todo ornamentado, cujo ponto principal era a imagem do Menino Jesus.
As moças portam pandeiros primitivos, só com o arco enfeitado de rosas e fitas coloridas.

FESTA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO: Acontece no dia 08 de Dezembro , dia da Padroeira do Município de Francisco Badaró.
FESTA JUNINAS: Durante todo o mês de junho, na Sede e Comunidades Rurais.

FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DO HOMENS PRETOS DE SUCURÍÚ : Acontece sempre no terceiro domingo de Julho, de acordo com o Estatuto da Irmandade do Rosário.
A festa do Rosário dos Homens Pretos de Sucuriú é a maior festa religiosa do município até hoje, é uma manifestação de louvor e alegria a Nossa Senhora. É a maior expressão viva da força e da luta dos escravos e de todo povo badaroense. Ela se caracteriza em apresentar um cortejo, composto pela rainha e rei, damas e outros grupos de destaque. Que seguem ao som dos tambores com músicas tipicamente africanas e do Grêmio Lítero Musical Sete de Setembro.
A festa de Nossa Senhora do Rosário dos homens Pretos de Sucuriú, em razão do Compromisso da Irmandade, nunca deixou de ser realizada. O compromisso da Irmandade do Rosário confeccionado em 1846, permaneceu em vigor, com alterações à evolução dos costumes até aproximadamente 1960.
Antigamente, nas festas, tinha muita comida e doce de todos os tipos. Os fazendeiros davam leite, pinga galinha, porcos e bezerros para a festa. Davam também cargas de laranjas que eram utilizadas para fazer o vinho de laranja. Vinham mulheres da zona rural para ajudar a preparar a comida, os doces e as bebidas.
Subida e descida do reinado é cabível em uma festa na qual há Rei e Rainha. Outros costumes folclóricos vêm da festa do Rosário feita por Chico Rei na antiga Vila Rica; uma que é religiosidade histórica e folclore. Quando o Reinado passava em frente à casa de um irmão, fazia-se uma parada. Subiam pela Rua Costa Melo e desciam pela Rua do Rosário.
O vestido da Rainha era enfeitado de ouro e as coroas eram de ouro puro.
A Irmandade mostrava toda sua força vital para ocasião da festa. Era um dia importante para os homens pretos. Festa é sempre diferente da vida diária. É um espaço de liberdade numa vida de escravidão. No centro das festividades encontramos três elementos: Nossa Senhora do Rosário, reinado e os tambozeiros.
Havia aqui em sucuriú, uma imagem de Nossa Senhora do Rosário em madeira, com uma coroa enfeitada de pedras de ouro. Não foi trabalhada por aqui. Deve ter sido adquirida no comércio, quando da fundação da Irmandade (1846), não sabe, pois quem a fez nem onde foi feita.
É opinião geral do povo que, sem os tambozeiros não há festa. O barulho dos tambores e os cantos convidam o povo a ir à igreja e a louvar aos reis e a Nossa Senhora. É destaque na festa o mastro, o cortejo, a missa da festa, a descida do reinado, chás dos festeiros, apresentação de danças típicas, show cultural.
Durante os nove dias de novena, Nossa Senhora é homenageada pelos fiéis que agradecem por sua intercessão. A festa acontece no período de 13 a 24 de julho, tradicionalmente.

ACERVO CULTURAL

ARLINDO VIEIRA BORGES: Arlindo Vieira Borges, nascido aos 23 de Outubro de 1909, no então arraial de Sucuriú, município de Minas Novas, hoje cidade de Francisco Badaró, Estado de Minas Gerais, filho de Francisco Borges de Sousa e Idalina Vieira de Sousa.
Aos sete anos de idade, foi matriculado na Escola Masculina do arraial regida pela professora Cândida Maria dos Santos, aí permanecendo até o final do curso em 1922. Teve uma vida religiosa bastante atuante, principalmente junto à liga Católica Jesus Maria José, entidade esta, a que participou durante 60 anos, ou seja, desde a sua fundação.
Casou-se em 1959 com Maria Madalena Vieira, de cujo consórcio teve quatro filhos, sendo dois do sexo masculino, estes excepcionais, com problemas irreversíveis.
Aposentou-se em 1974, após 46 anos de trabalho nos correios e telégrafos.
Foi um autodidata; destacando-se no mundo histórico literário com vasta obra tanto em crônicas quanto em poesias dentre as quais podemos citar:

Daqui, Dali, Dacolá (1980)_ Com Crônicas Históricas;

Coisas do Sertão (1975) _ Com Crônicas e Poemas diversos, escrito para o “Nosso Jornal” de Araçuaí.
Uma coletânea de discursos sobre os mais variados eventos do município feito para amigos que o procuraram em diversas ocasiões.
Em seus poemas e crônicas, abordou sempre temas atuais, tanto a local quanto nacional e internacionais, numa linguagem rica, sem rebuscamento, enfocando assuntos de realidade levando o leitor a uma posição critica perante os fatos.
Pode-se dizer que, Arlindo Vieira Borges, foi a expressão maior de cultura de Francisco Badaró .Veio falecer no dia 09 de janeiro de 1992.

Poema : Francisco Badaró – Jubilar de Prata!

Lembras-te, Velho Sucuriú,
Dos idos do século dezoito,
Quando o Faria, afoito,
Te fez aqui edificar?
Em vale pequeno, apertado,
Mais parecendo um bêco,
Que se tornara valorizado
Pelo ouro do Córrego Sêco?

Lembras-te do velho açude
Obra de Atanásio Couto,
Trabalho do braço escravo,
Na história hoje um bravo?
Do bambusal do “moinho”,
Da passarada abrigo,
Antes do velho Chiquinho,
Costa Melo plantara trigo?

Lembra-te do Velho Pau dalho,
Com seu peote de gigante,
Hospedeiro generoso
Do passageiro migrante?
Do vestuto jatobazeiro
Lá no alto do Rosário,
Testemunho permanente
Do irmão proprietário?

Depois de tudo isto,
Apesar de tua idade,
Te julgaram merecedora
De sediar a cidade;
Seria velho Senil
Desposanco menina-môça
“Cheia de encantos mil?”
Não ! São cinco lustros apenas,
Com novo nome adotado;
Fica válida a união
Entre futuro e passado!

Ao antigo Sucuriú,
A Francisco Badaró,
Parabéns de todos nós
Ao ensejo da festança:
_Dos velhos , sem nostalgia,
Dos jovens, com esperança!
(01-03-1988 Arlindo Vieira Borges)

GRÊMIO LÍTERO MUSICAL “SETE DE SETEMBRO”: A Banda de Música do antigo Sucuri-hú (atualmente Francisco Badaró), parece ter relação com aquele clima de liberdade que se começava a respirar nos últimos anos de escravatura e Monarquia.
Por volta de 1886, uma turma de rapazes, contrariando os costumes conservadores da época, reuniu-se para o aprendizado da música juntamente com numerosos oficiais seleiros, sapateiros e alfaiates. O pároco da época, Padre Bernardino, contava que em 1888, tocou juntamente com a Corporação Musical Lyra Conceição de Sucuri-hú (atualmente Grêmio Lítero Musical “Sete de Setembro”), comemorando a libertação dos escravos. Desta época nada se tem escrito sobre o título e componentes da Lyra, tendo somente declarações verbais de pessoas mais idosas que presenciaram tal fato.
A música em Sucuri-hú, nunca teve fim. Sem título, sem respeito social, apenas com um regimento interno elaborado pelos componentes, abrilhantava as festividades religiosas saudando Nossa Senhora do Rosário e da Conceição. A Corporação Musical “Lyra da Conceição de Sucuri-hú” foi fundada com o fim de ser mais um elemento de ordem e progresso no arraial de Sucuri-hú.
Na década de cinqüenta, precisamente em nove de setembro de mil novecentos e cinqüenta e sete (09/09/1957), a Lyra Conceição batizada com o nome Grêmio Lítero Musical ” Sete de Setembro” é registrada em cartório passando a existir juridicamente tendo estatuto interno e diretoria. Sendo sua principal finalidade de manter a tradição musical no meio das famílias badaroenses (pois aqui, cada família que constitui este município tem ou teve um de seus membros participantes da banda de música), mantendo uma escola de música gratuita, destinada expressamente para o brilhantismo de festas cívicas, patrióticas, especialmente na comemoração das datas nacionais ou de algum acontecimento histórico de capital importância para o país, estado ou para municipalidade.
O Grêmio Lítero Musical, foi declarado utilidade pública pelo decreto nº. 432 de 02 de outubro de 1991 e considerada uma entidade filantrópica, ou seja, não tem fins lucrativos e que não distribui lucros ou dividendos, nem concede remuneração, vantagens ou benefícios, a dirigentes, conselheiros, associado ou instituidor.
Atualmente, a grande maioria dos componentes do Grêmio ( cerca de 90%) são crianças, jovens e adolescentes de até 20 anos cuja arte da música vem retirando-os da rua, dando-os dignidade, brilho e esperança. Com um total de quarenta e sete componentes (47), o Grêmio Lítero Musical “Sete de Setembro” realiza apresentações onde dobrados e valsas fazem o acorde perfeito da melodia, característica deste município que há mais de 120 anos engrandece perante os municípios circunvizinhos sendo o berço da música do Nordeste de Minas, Vale do Jequitinhonha.

ARTESANATO: É secular a tradição do trabalho artesanal em algodão no município. Assim relata August de Saint-Hilaire, século XIX: “Quase todas as mulheres de Sucuriú fiam algodão, e, na maioria das casas dessa povoação, fazem-se tecidos mais ou menos grosseiros”. “Os mais finos se consomem na própria família, e vedem-se os outros, cujo fio não custa tanto fiar, e, ao mesmo tempo, encontram mais fácil colocação”.
A presença de uma roda, um fuso, era na certa a presença de aconchego, encontro de famílias. O conhecimento da vida, os valores, a educação dos filhos iam se moldando como o algodão que era descaroçado, batido, fiado. Nas mãos das mulheres o algodão se transformava em pavio, em linha, em meadas e novelos. Com muita precisão as linhas se transformavam em toalhas e tecidos para roupas. Os pavios se agrupavam para formar os cobertores e colchas. Com certeza, muitos de nós já fomos envolvidos ou protegidos por um cobertor feito por nossas avós. Hoje nosso artesanato de algodão tem outra dimensão. Ele saiu dos limites de nossas casas, nosso município e conquistou o Brasil e outros países. È o artesanato da resistência que vem vencendo barreiras.
São artistas do tear. É a simplicidade das fiandeiras mescladas aos pavios e linhas. É dignidade conquistada ao término de cada colcha, tapete, almofada, rede e cobertor.
O artesanato em algodão lançou uma linha para o futuro, na qual vamos tecendo nossa história. Muitas inovações surgiram e aquele trabalho que antes era quase familiar passou a ser coletivo, sustentado pelo associativismo. Hoje há a Associação dos Artesãos de Francisco Badaró, atualmente com aproximadamente 150 associados, das diversas comunidades rurais que buscam uma melhoria na qualidade do produto e melhores condições de trabalho.

MÚSICAS DA FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DA IRMANDADE DOS HOMENS PRETOS DO SUCURIÚ.(cantadas e tocadas pelos tamborzeiros): _ Olha a poeira aí Sá Rainha
Pisa devagar Sá Rainha
Seu sapato é branco Sá Rainha
Pode empoeirar.
_ Ô vamos todos juntos
Beraba.
Ô viva a mãe de Deus
Beraba.
_Quando a lua sair
Eu vou girá Caçá tatú Tamanduá.

_Fura não fura Fura.
Amanhece, não amanhece?
Amanhece.
Anoitece, não anoitece? Anoitece.

_Oi chora lambauê
Oi chora lambauá
No Rosário queremos ver
A mãe de Deus andar.

_Viva o Capitão, Viva!
Viva Nossa Senhora do Rosário Viva!

_Balainho de fulô,
Balainho de fulô, Balainho de fulô
A coroa do rei balanceou.
Oi balanceou, balanceou, Balanceou, a coroa do rei balanceou.

_Quando o sol entrar Eu vou sair
Furar abelha e jataí.

_Oi lá vem tambor Voando fita
Do lado que tem Moça bonita.
_A pinga é boa
Aqui mesmo eu bebo Aqui mesmo eu caio.
_Batuque na cozinha Sinhá não quer
Tição rolou, queimei meu pé.
_O Deus que criou o céu,
O Deus que criou a terra
O Deus que criou Adão,
O Deus que criou Eva.
_Oi cadê mulequim
Oi ele aqui.
_Ô menina bonita
Que sabe ler
Ô soletra meu nome
Que eu quero ver.

VERSOS:
“Joguei água prá cima
Aparei com a caneca
Menininha bonitinha
Cinturinha de boneca”.

“Meu amor tá na janela
Tomando café com queijo
Tira o lenço limpa a boca
Venha cá me dar um beijo”.

“Não quero lápis de ouro
Nem caneta de jasmim
Só quero Ter certeza
Que você gosta de mim”.

“Rio acima rio abaixo
Tudo isso já andei
Procurando amor de longe
Que os de perto já deixei”.

“Subí na caixa d”agua
Prá ver peixe nadar
Os casados tem inveja
Dos solteiros namorar”.

“Da Bahia mandei vir
Duas tesouras de ouro
Uma prá cortar ciúme
Outra prá cortar namoro”.

“Ainda ontem eu tive um sonho
Que meu amor tinha morrido
Acordei muito assustada
Já com outro no sentido”.

LENDAS:Estórias que o povo conta.
1- A MULA SEM CABEÇA.
Alguns anos atrás, nesta comunidade, haviam três mulas- sem- cabeças que, quando chegava a quaresma se encontravam para fazerem assombrações diabólicas.
Uma delas residia aqui e tinha um filho. As outras residiam na zona rural. Quando chegava a quaresma elas saiam marchando e relinchando, dando patadas; andavam até a meia noite. Por isso a população tinha medo. Diziam que elas iam para um lugar chamado “Lagoa Grande”, onde brigavam com todos os animais, dando patadas e dentadas.
Em um certo ano, a mula sem cabeça saiu e encontrou com seu filho que ia para casa e disse para ele: Meu filho, fecha os olhos e esconda as unhas. Este reconheceu sua mãe, porque na época de quaresma, ela dormia durante o dia e ficava com os olhos avermelhados como brasa. Chegando em casa ele olhou pela fenda da fechadura de seu quarto e a cabeça da sua mãe se encontrava em cima do travesseiro queimando numa grande chama de fogo. Por esse motivo quebrou-se o encanto de sua mãe.

2- O LOBISOMEM.
“Diziam os antigos, que um dia um casal que morava num lugar denominado “Vargem do Tatú” iam fazer um passeio, sairam a mulher com um filhinho nos braços e seu marido. Chegando em uma certa altura, o esposo pediu que sua esposa fosse andando que ele ia ficar um pouco atrás.
Quando a mulher já estava um pouco distante, apareceu-lhe um enorme cão que saltou em sua frente dando-lhe dentadas. Ela chamava pelo esposo, e nada. O cão foi embora; o esposo apareceu um pouco estranho. Ela contou-lhe a estória. Ele sorriu e em seus dentes ela viu fios do pano que enrolava a criança e disse: -É você que assombrou-me atacando seu filho…
Assim foi quebrado o encanto de seu esposo e ele nunca mais virou lobisomem”

3- O CAVALEIRO DA MEIA-NOITE.
“Antigamente, no Arraial de Sucuriú, na época da quaresma havia um cavaleiro que se trajava de roupas brancas e andava pelas ruas ate a meia-noite.
Certa noite, três jovens senhoras tiveram a curiosidade de abrirem as janelas de seus quartos para verem aquele cavaleiro que passava pela rua. Quando o viram passando em um lado de uma gameleira histórica que existe nesse local. Disseram: olha ele lá!…
O defério respondeu do alto para elas: “Vá as merdas” e a mula que estava amontado deu um coice que atingiu á distância de 200 m, um sobrado que fica na Praça da Matriz.Nunca mais ele apareceu.

VOCABULÁRIO POPULAR:
Aistá – será?
Cacunda – costas
Dicumê – comida
Disapêia – desça do cavalo
Divera – de verdade
Enxergão – colchão
Iscadeira – cintura
Ribuçar – cobrir
Sodá – cumprimentar
Vai prá zaraba – vai pro inferno.

DITADOS POPULARES:
“Cavalo dado não se escolhe a idade”.
“Filho de peixe, peixinho é”.
“Uma mão lava a outra”.
“Se não matar engorda”.
“Quem casa quer casa”.
“Santo de casa não faz milagres.
“Quando a esmola é muita o santo desconfia”.
“A pressa é inimiga da perfeição”.
“De grão em grão a galinha enche o papo”.
“Quem vê cara não vê coração”.
“Quem dá aos pobres empresta a Deus”.
“Pobre só come galinha quando um dos dois está doente”.
“Praga de urubu não mata cavalo”.
“Roupa suja se lava em casa”.